Meio-Fio

 

Os trabalhos reunidos para esta exposição têm o mesmo ponto de partida: o olhar.
É a partir de fotografias e desenhos de observação capturados por andanças, que David Magila encontra os objetos de sua obra.

Não à toa, eles frequentemente remetem a uma arquitetura familiar – a nós e a ele –, que tem as paisagens do litoral como principal fonte de inspiração.


Ao recriar no desenho e nas pinturas o espaço observado, o artista imprime a identidade que caracteriza seu trabalho: os trabalhos evidenciam o vestígio deixado em e por estes lugares, uma vez habitados, e que, no entanto, se encontram estáticos e vazios; incompletos, num estado de espera entre o movimento que deixou um rastro e a volta de alguém que devolva uma função prática a eles. Esse é também o estado do meio-fio, que dá título à exposição: uma parte esquecida, carente de função, que só separa uma coisa da outra enquanto há o movimento.


Se a arquitetura popular que vemos nas ruas é, muitas vezes, fruto do improviso e da gambiarra, qual é o lugar da arquitetura pensada por grandes nomes do ofício? Se as cores – ensolaradas, mas tímidas – e as formas vacilantes excluem o caráter definitivo e realista das telas, quantos lugares podemos encontrar nas construções que enxergamos? Se, entre as “Frequentes Conclusões Falsas” não se pode encontrar uma verdade absoluta, algo já sabemos: temos aberto um caminho para infinitas possibilidades no encontro com nossas próprias sensações. Só o movimento do olhar preenche a incompletude do que observamos.

 

Sarah Rogieri, agosto de 2016

para a exposicão Meio-Fio na Galeria OMA

 

DAVID MAGILA