E tudo isso pra sua proteção

Vinte sacos de areia repousam sobre o chão duro de uma praia, numa tentativa que se desenha fracassada, de antemão, caso os volumes tiverem a função de servir para resguardar alguém (ou algo) das intempéries do mar. E o oceano predomina, se impõe, com vagas ruidosas, incessantes, brutas.

Improviso, vídeo de David Magila que abre Como vencer o morro, primeira individual do artista paulista em Porto Alegre, salienta a chave poética que perpassa todas as pinturas, vídeo e tridimensional apresentados atualmente na Mamute. A atmosfera de um quase desastre, de um descontrole que nos ladeia, de estruturas delgadas que podem se revelar quebradiças com um movimento em falso, tais componentes ajudam a sedimentar um clima de melancolia de difícil reversão. Em tempos de obscurantismo em diversos âmbitos, o corpus construído e à mostra pelo artista hoje não deixa de nos lançar temores, e eles estão longe de serem infundados.

Assim, Como vencer o morro se constitui numa tentativa ainda com mais persistência de trânsito entre as linguagens visuais, opção de Magila que já aparecia com força em individuais anteriores. Por exemplo, o tridimensional Iscas 3 retoma o fazer escultórico do artista, mas em sintonia com o dado de fragmentação que é evidente na produção. Na exposição No quase platô, exibida no Marp em 2016, a telha algo rota já estava presente, com sua existência anunciada entre a integridade e o desmanche, e hoje, junto de Improviso, configura ainda mais o trajeto arriscado da obra do artista entre o ideal e a concretude, a harmonia e a instabilidade, o projeto/programa e as necessidades básicas e diretas do agora.

“A aceitação de uma realidade caracterizada pela dispersão e pela diferença, pela soma, pela sobreposição e pelo choque entre peças e fenômenos conduz a sistemas que nada mais são do que uma recomposição de fragmentos”1 , assevera o crítico de arquitetura e urbanismo Josep Maria Montaner.

Em um dos espaços expositivos da galeria gaúcha, encontramos telas de Magila com sua assinatura característica, a de um forte fundamento gráfico. Há então, desenho, com um procedimento de decalque, via papel carbono, que se manifesta indicialmente e que podemos notar apenas observando de perto suas pinturas. Existe, também, algo do procedimento matriz/múltiplo, pois uma imagem pode servir a mais de uma obra final e remete a métodos empregados pela gravura. E as composições finais dos quadros podem resultar de um tipo de mashup, em que o artista utiliza imagens extraídas de distintas fontes – há, portanto, pensamento de colagem e de fotografia.

As pinturas da série Frequentes conclusões falsas e Ricocheteios, notamos, são fundamentadas em bases híbridas e não estanques. Magila hoje passeia por escalas diversas – neste recorte, os pequenos formatos voltaram com Ricocheteios -, fixação no bidimensional e nas possibilidades dentro dele – o pictórico cada vez faz mais permutas e outras combinações em seu próprio campo – e ampliação de gestos, abordagens e investigações pelo diálogo com o espaço, com o volume e com o audiovisual (ou seja, com uma imagem expandida).

Traço realçado de Como vencer o morro é a ideia de proteção, apresentada de modos variados e como um conceito de parca solidez. A fragilidade do silicone e da argila de Iscas, o azul ensacado de Improviso, prestes a ser solapado por algo que se anuncia cada vez mais intenso, a vegetação em forte inclinação e as perspectivas esvaziadas das telas, todos são elementos que destacam como a segurança de ferramentas que inventamos e utilizamos à exaustão é esquálida, finita, se move para a ruína.

“Será verdade, será que não/ Nada do que eu posso falar/ E tudo isso pra sua proteção/ Nada do que eu posso falar”, já cantava Philippe Seabra em Proteção, faixa de O concreto já rachou (1985), do pós-punk oitentista brasiliense do Plebe Rude. A vigorosa canção, hoje perdida em VHS arquivados ou em registros menos vivazes, dizia muito sobre o espírito de tempo das grandes cidades à época, ainda nos primeiros passos da Nova República. A urbe mostrada (sem comentários literais e opções gritantes) por Magila, agora, traz esse tecido comum ainda mais esgarçado. “Até quando o Brasil vai poder suportar?”, cantava, em protesto, Seabra. Como vencer o morro talvez tenha ainda mais questionamentos do que uma resposta definitiva à indagação rascunhada faz décadas.

Mario Gioia, outubro de 2017

 

1. MONTANER, Josep Maria. Sistemas Arquitetônicos Contemporâneos.  Barcelona, Gustavo Gili, 2009, p. 148

DAVID MAGILA